Professor, um acessório descartável?

March 1st, 2008 Denise Posted in Pessoal, Trabalho, educação e ensino, violência 4 Comments »

Será que nós estamos desenvolvendo a "síndrome de Bournout", que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) atinge cerca de 25% dos professores? "Não é stress, depressão ou angústia: é pior, pois o professor se transforma num robô, o que é muito grave, porque a educação pressupõe dedicação.

Essa síndrome faz com que o trabalhador perca o sentido de sua relação com o trabalho, de forma que nada mais importa, e qualquer esforço parece inútil, causando uma enorme desmotivação, quando o profissional se depara com a violência que vem atingindo as escolas, tanto públicas quanto particulares. Essa violência, além de atingir os professores, prejudica o desempenho dos alunos."

Esta semana tive esta sensação de inutilidade pública diante de minhas novas turmas. Precisei me esforçar bastante para ter acesso àqueles alunos que pareciam não entender uma palavra do que eu dizia. Este fato me levou a pensar em minhas próprias convicções sobre meu jeito tão particular de dar aulas para platéias tão desinteressadas. Parece-me que não vêem razão para estudar "aquela coisa tão chata” a que os estou obrigando assimilar.

Olhando para os alunos, percebo que as dúvidas deles sobre os objetivos das aulas de Literatura são, exatamente, o porquê de terem de aprender tudo isso. Procuro explicar-lhes, mostrando que há vários métodos para se registrar a história da gente, nos diferentes tipos de Arte, e que eles poderão escolher em suas vidas, o método que mais lhes agradar para conhecer a história universal dos povos, e também para viajar pela aventura humana, e desvendar as questões mais transcendentais sobre o sentido da vida. E a mim compete apresentar-lhes a Arte literária. Nenhum deles me perguntou ainda por que não são obrigados então, a ter aulas de Música, ou de Pintura, ou de Escultura, ou de Arqueologia, ou de Antropologia, ou de Teatro, por exemplo.

Para eles, conhecer os movimentos literários, seus autores e obras, não serve para outra coisa, a não ser que "cai no vestibular". Então, penso que, se os alunos perguntam para que serve "esta coisa", ou por que têm de saber tudo "isso", é porque minhas aulas não estão demonstrando que eles saibam o tempo todo por que estão estudando Literatura, ou então é porque o conteúdo está sem graça, fora do contexto. O que será que o desinteresse dos alunos está querendo me comunicar? O que querem realmente me dizer com conversas paralelas, brincadeiras, sono (sim, alguns dormem na aula) e agressividade?

Parece-me que não estão direcionando estas atitudes especificamente para mim ou para a matéria que têm de aprender, mas para este ambiente monótono, asfixiante em que se transformou a sala de aula. Talvez preferissem estar em outro lugar, certamente em seus quartos, em jogos de computador, ou em outro ambiente que lhes trouxesse mais vontade de participar das atividades e não querer mais parar.

Considero-me uma mestra querida, sou carinhosa com meus garotos, mas, muitas vezes, em aula, no momento em que meu trabalho está se desenvolvendo, percebo o desinteresse dissimulado em risadinhas, conversinhas, fones no ouvido, "posso ir ‘no’ banheiro?", e imagino-me falando com as paredes. E nestas horas, sinto minha limitação para fazer as aulas criativas e interessantes, e transcender meus limites. E indago-me:"sou professora para quê?", se cada um traz dentro de si uma inquietude, uma curiosidade natural para descobrir sua história e meios para obter tal conhecimento (se assim o desejar, é claro)?

Então, concluo que, para os alunos que realmente desejam ampliar sua cultura e saciar sua sede de conhecimento, não é suficiente ficar assistindo a aulas, somente sentados naquelas carteiras. Preciso rever meus métodos. Talvez, nós, professores, já tenhamos sidos descartados e engolidos pela máquina globalizante. Uma professora-robô. Será?

Leia mais sobre síndrome de burnout, aqui e aqui.
Imagem: Repliee Q2

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Emoções demais

December 21st, 2007 Denise Posted in Mãe-órfã, Pessoal, Trabalho, educação e ensino 16 Comments »

Ontem foi um dia especial para mim. A formatura de minha turma do coração. Sim, existe uma turma que me marcou, nestes 31 anos de carreira. No momento mais difícil de minha vida, eles me acolheram. Abaixo, meu discurso-bate-papo que me levou às lágrimas. Vejam que galera linda!
Obrigada , meninos!

1301formatura.jpg

Assim comecei meu discurso:

” Srªs Diretoras , caros colegas professores, prezados pais, queridos formandos. Agradeço aos alunos da turma 1301 pelo convite para ser paraninfa da turma. Assim, este discurso será, para vocês, uma última aula.

O termo paraninfo tem atualmente, um significado diferente do original…

(Ah! , foi o murmúrio geral, ao que eu retruquei: vocês me escolheram? Agora “güenta”, hehe… )

E continuei:

… o termo paraninfo tem atualmente, um significado diferente do original. Antes, significava uma espécie de padrinho dos noivos”, do grego ‘para’ (junto) e ‘nymphe’ (noiva). A proteção aos noivos deveria ocorrer antes, durante e depois do casamento. Um tipo de padrinho com responsabilidades determinadas. Hoje, o paraninfo é o padrinho dos formandos. É como se fosse um pai da turma. E, no meu caso, a mãe de vocês.

Pensei, a princípio, em discorrer sobre sua trajetória acadêmica até chegar a este momento, mas, optei por lhes falar do relacionamento com vocês e de tudo o que tal convivência representou para mim. Peço licença à mesa e aos presentes, para dirigir-me diretamente aos formandos.

Vejo vocês, formados, e sinto diferentes emoções: primeiramente a de um professor, feliz por ver que de alguma forma contribuiu para lhes trazer algum ensinamento; a emoção de uma mãe, ou de um pai, ou avô, ou avó, que vê seu garotinho ou garotinha tornar-se um jovem e iniciar uma nova fase na vida. E a emoção de uma amiga que compartilha a alegria da formatura de seus amigos.

E, como professora, mãe e amiga, peço-lhes algumas pequenas grandes coisas:

Gostaria de que mantivessem sempre viva a vontade de aprender. Não apenas em sua área, na especialidade que vocês escolheram, mas, sem preconceito ou qualquer vaidade, aprendam sobre tudo. Enriqueçam-se com leituras de qualidade e outras fontes de informação, busquem recursos tecnológicos para enriquecer suas experiências culturais. Utilizem aquilo que aprenderam em sala de aula, e busquem mais; não se contentem com o pouco que nós , professores, lhes ensinamos; busquem mais. Quero vocês, ousados e determinados. Mas também humanos, éticos e responsáveis em suas atitudes com o meio social e o meio ambiente em que vocês estão inseridos.

(E, voltando-me para os professores presentes eu disse: “agora, vou ‘puxar a brasa para a minha sardinha’ “.)

E continuei:

Lembrem-se das obras estudadas durante o ano para o vestibular. (a turma riu.) A maioria delas trata dos problemas referentes a relacionamento entre as pessoas e a realidade. Lembrem-se das reflexões que fizemos em sala de aula. Aprendemos muito com Mestre Carpina, Fabiano, Sinhá Vitória, Madalena, Paulo Honório e tantos outros. Se estes problemas são temas de romances clássicos e universais, conclui-se que são temas importantes em nossa vida.

Este é um momento muito especial. Inesquecível. Imagino o que vocês estão sentindo neste momento, e o que esta formatura representa para vocês. Para alguns a realização de um sonho, para outros a conquista de uma vitória cheia de obstáculos. Muitos enfrentaram muitas lutas e dificuldades para chegar até aqui. É um momento de alegria, orgulho e emoção para os seus professores, por mais esta etapa cumprida, para seus pais, avós, irmãos e amigos presentes.

Meus queridos alunos da turma 1301, a convivência com vocês, certamente deixou em mim uma nova maneira de encarar a vida, especialmente em um momento em que ela só me deixara lembranças muito pesadas. E naquele momento, em que a vida estava tão pesada para mim, transferi para vocês, todo meu afeto. Obrigada por estes momentos que passamos juntos, por nossos projetos, e obrigada pela honra de ministrar esta última aula a vocês.

Agradeço a Deus, por nos abençoar, nos dar graça e paciência para chegarmos até aqui. Desejo tudo de melhor para vocês, como uma mãe deseja tudo de melhor para um filho. Como tudo de melhor que desejei para o meu filho. (Neste momento, a voz ficou embargada e as lágrimas vieram).
Felicidade e muito obrigada.”

À noite, houve uma linda festa. Muita alegria e descontração. Ainda não recebi as fotos, (já recebi algumas hoje, domingo) mas , pelo telão, vi que ficaram lindas. enxerguei em cada um daqueles rapazes e moças, tão alegres, tão lindos, dançando com tanta energia, vocês sabem quem

 

festa1301dez.jpg

Bem, missão cumprida. E a alegria do trabalho realizado com amor. E pelos amigos que conquistei.

fotos:

  1. minha querida turma 1301 e eu, no discurso de paraninfa
  2. Eu, de bruxinha, alguns professores e a turma, na festa de formatura
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Ai, minha cabeça!

November 15th, 2007 Denise Posted in Clarisse, a princesinha, Pessoal, Trabalho, Viver, casos de escola 8 Comments »

Ontem tive uma crise de enxaqueca terrível. Foi um dia perdido, sem forças, de cama a maior parte do tempo; parecia de porre. Passei o tempo todo deitada porque a luz do dia dóia. Qualquer barulho incomodava. E o telefone que não parava de tocar. Ai, Jesus! Só chateações. A escola me cobrando as notas. Ligou três vezes. E, cadê ânimo pra sentar-me ao pc e lançar as benditas? Vão ter de esperar! Não tinha forças nem para me levantar.

Nos momentos em que a dor era mais intensa, eu ficava imaginando que teria um derrame e que minha hora chegara. Pensava nas contas a pagar que minha filha herdaria. Nos cochilos rápidos, sonhava com meu menino. E o telefone a tocar… Apenas um telefonema me alegrou: o da Marcia Clarinha. Uma voz suave e amiga, era tudo de que eu precisava.

À noite, já sem dor, mas com um desânimo e uma sonolência terríveis, tive de ir à outra escola, pois a chefia anda descontando uma nota preta de quem falta. Tsc… tsc… tsc…. Véspera de feriado. Todas as turmas faltaram. Salas vazias. Adivinhem qual foi a única turma que compareceu? Pois é. Fizemos um painel com reflexões sobre o preconceito, aproveitando o tema de um filme a que assistíramos no dia anterior. Ficou muito bonito. Dispensei a turma mais cedo. Não tinha outro jeito.

Hoje estou sentindo os efeitos da enxaqueca: cansaço fora do comum. uma moleza estranha, cabeça meio dolorida e um sono danado. Parece que estou de ressaca. E a Princesinha quer brincar: “vovó, faz uma casinha pa mim?” E sobe em meu colo, por baixo da escrivaninha, enquanto tento desesperadamente lançar as notas no sistema. Aperta uma tecla, eu grito: “meu trabalho!” Ela chora: “Vovó bigou…” Vou brincar com ela. As notas? Bem, hoje é feriado. Elas podem esperar.

imagem daqui
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Exames finais

November 9th, 2007 Denise Posted in Pessoal, Trabalho, casos de escola 4 Comments »

provas-finais.jpg
trabalheira de sempre

Estamos realizando as avaliações finais. Os prazos para a entrega das provas é bem curto. Então, como ainda tenho onze provas para preparar, digitar e enviar; e também ainda tenho nove pacotes de provas já realizadas para corrigir, com o prazo mais apertado ainda para entregá-las aos alunos, para que possam ver suas médias e saber se estão aprovados ou se terão de fazer as provas finais; vocês já sabem que eu ficarei sem responder os comentários, mas leio-os todos os dias, e visito alguns @migos, na medida do possível. As aulas continuam em ritmo frenético. Assim que eu cumprir toda a minha “lição de casa”, volto a postar com mais freqüência. Fiquem bem quietinhos aí, ouviram? A tia já volta.

imagens: pescadas no Google

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Nos bancos escolares outra vez

November 6th, 2007 Denise Posted in Pessoal, Projeto de leitura, Trabalho, casos de escola 9 Comments »

princesa-e-autores.jpg

Hoje tive uma experiência extremamente gratificante! Era dia de apresentação de trabalhos de meus alunos da 3ª série. Eu não imaginei que eles fossem fazer algo tão surpreendente, pois, como já estavam envolvidos com a monografia de fim de curso, a bobinha aqui pensou que eles iam literalmente “embrulhar e mandar” o trabalho que sugeri, uma vez que não era obrigatório fazê-lo. Ledo engano. Subestimei a capacidade deles. Foi uma beleza de apresentação, com data show, slides no power point, som e imagem e um conteúdo muito bem estudado e pesquisado. E eles escolheram os autores preferidos por mim. Não sei se minha paixão foi percebida por eles, mas o fato é que apresentaram nada mais, nada menos que o seguinte:

O primeiro grupo me surpreendeu com um trabalho sobre Clarice Lispector! Começaram com dados biográficos interessantes e opiniões da autora sobre seu fazer poético. Mostraram um perfil de Clarice, analisaram a temática de suas obras. Analisaram algumas de suas obras, mostrando a relação entre os conflitos dos personagens e os da autora. Mostraram a reflexão sobre a existência e a epifania através de exemplos da linda obra de Clarice. Fiquei encantada! A qualidade dos trabalhos e a beleza de apresentação me emocionaram!

Outro grupo selecionou o meu mais querido poeta: Carlos Drummond de Andrade. Além das análises de poemas mostrando características interessantes de sua obra, o grupo me presenteou com alguns poemas recitados pelo próprio Drummond: Consolo na praia e Infância. Mostraram depoimentos do autor sobre sua obra e a politica. Sua relação com a morte da mulher e da filha, que culminou com a dele também. Seu sentimento do mundo e o desconcerto do poeta. Imagens lindas de Drummond, em diferentes fases de sua vida coroou o trabalho. Amei!

E, pra acabar de uma vez comigo, Gracilianos Ramos! E eu que pensava que eles não agüentavam mais ouvir falar sobre sertanejos, retirantes, problemas sociais e estas coisas que a gente tem de analisar nas obras por causa do vestibular. Pois bem, mais um espetáculo de apresentação da vida e obra do autor, seu lado político que culminou em sua prisão; as experiências fora do país; sua linguagem precisa, extremamente significativa. De Caetés a Angústia, sem deixar de falar sobre Vidas secas e o sertão de cada um de nós. Viajei pelas obras, junto com eles.

É claro que cada vez que eu interrompia para perguntar algo ou fazer alguma observação, eles ficavam nervosos, mas logo percebiam que estava apenas entusiasmada , como um aluno interessado querendo saber mais, he he. Sentada no fundo da sala, absorvia cada palavra,cada gesto, cada expressão deles. É muito bom sentar do outro lado! Gostaria de ter aulas assim mais vezes, porém a pressão do vestibular e o compromisso de dar todo o conteúdo e usar o livro até o fim, aliados à grande quantidade de provas que eles têm de fazer, acabam nos privando de momentos maravilhosos como este.

Para a próxima semana estão planejando a encenação de um quadro , baseado na obra de Monteiro Lobato. e para entrar no clima, nada melhor que a Princesinha vestida de Emília, he he! Fiquei feliz com o resultado, pois lancei o projeto e dei liberdade para o fazerem se desejassem. E também quem definiria o que iriam fazer seriam eles mesmos, de modo que o trabalho ficou mais prazeroso. Achei interessantíssimo quando uma aluna disse que não gostava de Clarice, mas, após ler e compreender a vida da autora, pôde entender melhor sua obra e gostar da mesma. E terminou sua exposição dizendo: “leiam Clarice!” Ganhei o dia!

Eu, metida como sou, aproveitei para dizer que conheço o neto de Graciliano e fiz uma propagandazinha dos livros do Ricardo Filho. Depois eu cobro, hein, Lord! He he… E, olhando as caricaturas do Graciliano e da Clarice, fiquei pensando em como tive vontade de ganhar uma caricatura no Barcamp; mas, só quem era indicado é que recebia esta honra… Também não perdi a oportunidade para falar que a minha Princesinha também se chama Clarisse, com dois esses. E, finalmente, ao ver a última imagem, a de Drummond, sentado no banco, na praia de Copacabana pensei alto: “ainda tiro uma foto sentada ao lado dele!

Vou sentir falta destes meninos . No próximo ano estarão na Universidade. Lembro-me de meu filho. É inevitável… Mas estou feliz. Com o coração apertado, mas feliz. Suspiro… que fundo… (parafraseando Drummond).

imagens:
Estátua de Drummond, praia de Copacabana Rio
caricatura de Graciliano Ramos- daqui
caricatura de Clarice Lispector - Pedro Henb

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Curtinhas

October 13th, 2007 Denise Posted in Blogagem coletiva, Meio ambiente, Trabalho, educação e ensino 7 Comments »

I- Professores

Dia 15 de outubro é comemorado o dia do professor. Uma aluna questionou por que não há aula neste dia, se o marido dela é bancário e trabalha no dia dos bancários. Eu não respondi nada. Vou passar o dia corrigindo provas e preparando outras tais. Se aparecer algum evento, talvez eu largue minhas obrigações e vá. A desvalorização do magistério chegou a tal ponto que não quero discutir o assunto. Na verdade, trabalho tanto em casa quanto nas escolas. É uma jornada de quase dezoito horas. Este dia é uma homenagem aos mestres e também um dia de reflexão sobre a educação. Acredito que temos um papel importante a cumprir e, graças a Deus, tenho feito minha parte. Meu respeito e carinho a todos meus mestres que me auxiliaram a conquistar meus objetivos e me ensinaram a refletir sobre a vida e a fazer escolhas conscientes.

II - Prêmios e memes

Sinto-me literalmente abraçada quando @migos, carinhosamente citam meu blog em suas homenagens, em seus prêmios, nos memes e em correntes que se propagam pela blogosfera. Eu, particularmente, não me sinto à vontade para passar correntes, pois o fato de ter de escolher entre este ou outro amigo é tarefa difícil demais para mim. Então, apenas citarei as homenagens e agradecerei aos amigos que me indicaram e deixarei todos à vontade para postarem também a respeito. Bem, a Aninha me enviou a “Corrente da Amizade ” cujo objetivo é agradecer a gentileza de compartilhar artes, pensamentos e um pouco da vida com outros blogueiros, em nossos posts. Quanta gentileza! Já a Luma passou-me “O Elo da Corrente da Amizade”, um prêmio atribuído a blogs que tenham “amor” à Terra, a solidariedade, a preocupação com a natureza, e muitos outros valores fundamentais que parecem estar cada vez mais extintos de nossas vidas. Obrigada @amigas!

III- Action Day

Amei os prêmios recebidos e aproveito para convidar, ou melhor, convocar todos que têm tal preocupação com o meio ambiente a postarem no dia 15, dia da Mobilização mundial dos blogs para falar sobre um tema único. O tema desse ano é Meio Ambiente. Participe! Faça um post em seu blogue, relacionando o tema do mesmo, à questão ambiental: A data é especial e todo blog, independente do assunto de que trata normalmente, é convidado a participar do evento. Blogs de viagem podem, por exemplo, discutir sobre ecoturismo; blogs de piadas, fazer reflexões bem-humoradas sobre a questão ambiental - e assim sucessivamente. Cadastre seu blog no site do Blog Action Day e prepare o post. Publique no dia 15 de outubro em seu blog!

Participe!

15 de outubro: dia de falar sobre meio ambiente na blogosfera.

Imagens: 1- eu na luta; 2- papelada, 3- meme ; 4- Action day.

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“O Português são dois…”

April 2nd, 2007 Denise Posted in Trabalho, educação e ensino 12 Comments »

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Voltando ao assunto que começamos há alguns dias (aliás, tenho pensado muito nisso ultimamente), percebo que há muita controvérsia em relação à questão da violência protagonizada por jovens de classes desfavorecidas. E me pergunto mais uma vez se não estou quixotescamente a combater moinhos de vento.

Fazendo um balanço do perfil de alunos adultos que tenho, vejo que, embora muitos tenham força de vontade para concluir os estudos, as condições não lhe são favoráveis. Esbarram em tantas dificuldades que vários pensam em desistir.

Tento ouvir suas razões e preocupações e tento ajudá-los, compreendê-los, e, principalmente, estimulá-los, dizendo-lhes que são capazes, que não há idade para aprender, que não devem perder a esperança, que a força de vontade deles pode levá-los a vencer as barreiras. Coisas assim. Às vezes parece que estou falando comigo mesma…

Quero tanto que todos aprendessem e se tornassem pessoas melhores, solidárias, capazes de enfrentar o mundo, a vida com competência e dignidade. Mas, quanta dificuldade… E eles dizem: “vou parar. Não tá dando mais. Tá difícil.” Difícil a vida que levam, e difícil os conceitos que não conseguem aprender.

Esqueço-me, ou pelo menos deixo um pouco de lado, as noções gramaticais, ortográficas e sintáticas, que, como já dizia Drummond, são “figuras esquipáticas” , que confundem, atropelam, aturdem” e passo a utilizar textos e assuntos que , de alguma forma, possam responder algumas de suas inquietações.

Textos sobre família, valores morais e vida em sociedade. Depoimentos de experiências bem sucedidas de outros adultos que, como eles, enfrentaram o desafio de terminar os estudos e lutarem por uma vida melhor. Falo também sobre Deus, sobre esperança e paz , sobre pedir força e coragem para enfrentar a vida com serenidade.

Muitos não têm contato direto com a família, vieram para o Rio trabalhar e não vêm os parentes há anos. e como isso lhes faz falta. Certa feita, uma aluna chorava em sala pois sua mãe que não via há anos, falecera em Minas e ela não podia viajar, pois não tinha dinheiro e nem a patroa a deixaria sair.

Trato a todos com carinho e paciência. Às vezes me descabelo. Acontece. Me exaspero. E envergonho-me. Não é fácil para estes alunos produzir textos escritos. Mas, o preconceito e a desigualdade social, a falta de oportunidades, as injustiças, estas, sabem dizê-las muito bem. A dificuldade muito grande para ler e escrever criticamente, não significa que sua leitura de mundo não seja impressionante.

Muitos alunos desistem da escola, porque precisam sair para trabalhar. Não é bom vê-los desistir, às vezes, quase no final do ano. O mundo destes alunos é cheio de dificuldades, lutas, fracassos, e pouquíssimas vitórias. Observo em seus rostos cansados, a tristeza, o sono, a fome, depois de um dia de trabalho, e sei que é um sacrifício enorme para eles virem estudar todas as noites. Muitos acabam dormindo sobre a carteira.

Pode ser que eles não aprendam a matéria que tento ensinar, mas eu, com certeza, estou aprendendo a difícil lição de viver. E me pergunto mais uma vez: quem precisa aprender ditongos e tritongos quando há um hiato em suas vidas?

Aula de Português

Carlos Drummond de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender

A linguagem
na superfície estrelada de estrelas,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.

imagem Google

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Carinho contra violência

March 24th, 2007 Denise Posted in educação e ensino 11 Comments »

Dom Quixote, por Picasso

Atualizando

Os comentários estão me instigando a continuar este papo. Então, continuarei a falar sobre o assunto em um próximo post, amanhã ou depois. Enquanto isso, podemos continuar a conversa nos comentários.

A notícia da morte de um professor, no Rio de Janeiro, supostamente espancado por alunos, provocou uma discussão hoje, no centro de estudos dos professores. E percebemos que estamos à mercê dessa dura realidade: violência gera violência; carinho e acolhimento resulta em reconhecimento.

Pelo menos é o que temos percebido com nossos alunos que, no início do ano letivo, chegam “cheios de marra” e, aos poucos, reagem a nossa acolhida afetuosa com reciprocidade. Eles demonstram uma mudança de atitude interessante. Para mim, é muito natural tratá-los com carinho. Esta sinceridade é percebida por eles e, embora muitos tenham histórico de violência, mudam o comportamento em relação a nós professores.

A maior dificuldade encontrada em sala de aula está relacionada à necessidade que os alunos têm de serem ouvidos, respeitados em suas idéias, e quando isto não acontece, usam o método que conhecem, a agressividade, para serem notados e assim, conseguirem a atenção do professor.

Já nem me importo mais se aprendem os conteúdos, desde que a auto-estima deles esteja sendo cada vez mais estimulada. O pessimismo e a imagem negativa que fazem de si mesmos, aos poucos vai mudando ao perceberem que seu sucesso é reconhecido.

Não acredito que a escola tenha a solução para o problema da violência, mas creio que ela pode ser um referencial de acolhida, de respeito aos valores e às virtudes; um espaço em que o carinho e a afetividade neutralizem a violência e a desesperança que vejo refletida em seus olhares.

- Oi, meus amores! Tudo bem? Meu querido, tá chegando agora, por quê?

- Tava trabalhando, fessora…

- Ô minha linda, não está entendendo? Vem cá que eu a ajudo.

- Vamos lá, olha pra mim, garoto!…

Às vezes sinto-me tal qual Quixote a combater moinhos de vento… Uma luta inútil? Não importa. Necessária, eu diria… Continuarei, com impetuosidade e paixão: “sturm und drang“!

 

Um Sonho Impossível

 

Chico Buarque & Ruy Guerra

Sonhar

mais um sonho impossível,

lutar, quando é fácil ceder,

vencer, o inimigo invencível,

negar, quando a regra é vender.

Sofrer,

a tortura implacável,

romper, a incabível prisão,

voar, no limite improvável,

tocar o inacessível chão.

É minha lei,

é minha questão,

virar esse mundo,

cravar esse chão.

Não me importa saber

se é terrível demais,

quantas guerras terei de vencer

por um pouco de paz.

E amanhã,

se esse chão que eu beijei

for meu leito e perdão,

vou saber que valeu

delirar e morrer de paixão.

E assim, seja lá como for,

vai ter fim a infinita aflição

e o mundo vai ver

uma flor brotar

do impossível chão.

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… não espera acontecer…

March 3rd, 2007 Denise Posted in Mãe-órfã, Trabalho, educação e ensino, 7 Comments »

images.jpgO post anterior suscitou comentários que “cutucaram” minha postura diante da situação violenta que invade, não só as escolas, mas a sociedade. Reproduzo aqui algumas questões levantadas e as considerações que fiz, como uma reflexão a respeito da pergunta que faço diariamente a mim mesma: desistir ou continuar?
Vamos lá?

Atualizando

A despesa para manter um menor infrator em regime de internação é de pelo menos 4.400 reais por mês. Esse valor representa o gasto do Estado para manter 28 alunos no ensino público fundamental. O custo anual do aluno no Brasil em escola pública está estimado em 1.900 reais, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Especialistas defendem mais investimento em ensino, e que o Estado trate a educação básica de fato como prioridade.
Há o que pensar…

****

A Aninha frisou que os alunos também precisam de que eu os olhe além deles, mas não com olhos perdidos, mas que os veja além do que estão mostrando. Esta parte é difícil, dolorosa, pois me sinto impotente, por isso disse que apenas os escuto. E faço o que me é possível: dou afeto e atenção. Por enquanto, se não, desmonto também. Ainda estou convalescendo., Sou humana, não é?

Já a Luma questiona a “violência” dos professores. E cita o caso da que cortou a língua do aluno. Acredito que, nós, professores, precisamos perceber a hora certa de nos afastarmos pra recarregar as forças. Um afastamento pra cuidar da saúde é melhor que trabalhar sobre tensão. Há muitos professores afastados ou readaptados, que “surtaram”. Por isso, procuro manter um afastamento saudável. Lembro-me, com carinho, de minhas professoras. O tempo era outro. “A maior riqueza que levamos dessa vida, são as pessoas com que realmente partilhamos afeição”, com certeza!

O questionamento da Mamy é em relação à dificuldade, eu diria até, impossibilidade, de se olhar esses meninos violentos como pessoas. E é muito triste pra mim ver que, não só o pessoal da “Justiça”, mas todos os envolvidos diretamente com o trabalho com adolescentes “de risco” não estamos preparados para tratar desses meninos. São estigmatizados como “bandidinhos” irrecuperáveis…

Não sei se eu era menos suscetível a esta questão antes de perder meu menino, como diz a Elizabeth, pois eu preferiria que este aprendizado fosse menos doloroso… Paguei um preço tão alto para “mudar a maneira de olhar a vida e concentrar-me no que realmente interessa: o ser humano”. Mas, concordo que esta experiência me proporcionou perceber o acolhimento de pesso@s que nunca me viram, o que me mostrou que nem todo mundo é cruel. Há pessoas que nos amam e nos apóiam. Será que meus alunos também não vêem isso em mim?

Como bem disse o Cejunior , também me sinto freqüentemente: “dando voltas em torno do mesmo tema”, mas, se não mantiver a esperança, acabaremos “surtando” como vimos acima, o caso de professores que reproduzem a violência a que estão expostos. Minha experiência pessoal me fez mais humana, pois, cada aluno meu que morre, vítima de violência, me faz lembrar, o quanto ele é precioso pra alguém: a mãe. Outros, não fazem falta pra ninguém, pois ninguém os queria.

A força para continuar lutando, busco em Deus, todos os dias, em oração, muita fé, no apoio dos amigos ,e, com certeza, em minha Princesinha (netinha de um ano), que merece um mundo melhor.

Falei sobre esta minha “mudança”, no post execução e perdão “. Talvez esclareça o porquê de eu não desistir. Indignação e esperança. Não sei se vai dar certo. Apenas tenho de continuar acreditando. “Poderia ser com seu filho…”, não é assim que dizem por aí?…

Pra não dizer que não falei de flores!

(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Pelos campos a fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição“…

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Lição de amor…

March 2nd, 2007 Denise Posted in Mãe-órfã, Pessoal, educação e ensino 8 Comments »

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Hoje tive a triste notícia de que mais um de nossos alunos foi vítima da violência. Ando com minha sensibilidade à flor da pele, e vejo em cada um desses meninos, meu próprio filho. Minha postura, como professora mudou radicalmente, depois que perdi meu menino. E passei a olhar meus alunos, como uma mãe.

E, como tal, sinto necessidade de olhar cada aluno individualmente (como faz uma mãe), para tentar compreendê-los de tal maneira que possa descobrir o que dizer a cada um deles e cuidar dessas “crianças” (meus alunos variam de 12 a 60 anos).

Essas “crianças”, por mais difíceis que sejam, têm o direito de serem amadas. Não um amor falso, soando a piedade, mas sincero e espontâneo. Não é fácil amar os alunos, mas amar os filhos é muito fácil. Como professores, muitas vezes ignoramos, e até marginalizamos alguns alunos. Quantas vezes somos preconceituosos em relação aos alunos pobres, negros ou com histórico de violência?

Observando alguns alunos, durante a aula, percebo que estão olhando para mim, mas, ao mesmo tempo, seus olhos estão olhando além de mim. Pergunto o motivo de tal dispersão e ouço histórias que jamais pensei que alguém pudesse viver.

Como concentrar-me em transmitir conteúdos formais, quando, naquele momento, tudo o que meu aluno precisa é de alguém que possa escutar o que ele tem a dizer? De que lhe serviriam ditongos e tritongos, se há um hiato em sua vida que precisa ser preenchido? Eu não respondo nada. Apenas escuto. E aprendo.

E assim tem sido, nos últimos meses. Depois de uma experiência traumática, deixei muitos hábitos arraigados há anos e mudei minha maneira de olhar a vida e concentrar-me naquilo que realmente interessa: o ser humano.

E, com respeito, afeto, e uma conversa franca, é fácil constatar que esses alunos são, antes de tudo, seres humanos. Crianças, jovens e adultos cheios de sonhos, desejos, anseios e, às vezes, muitos traumas e revoltas, que podem ser transformados em esperança.

Hoje, quando tive a triste notícia de que mais um de nossos alunos fôra vítima da violência, senti como se tivesse perdido novamente meu próprio filho…

imagem : Google

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